Documentos públicos do registro comercial de Curaçao, do Departamento de Estado da Flórida, do Escritório de Patentes e Marcas dos Estados Unidos e da Receita Federal mostram um padrão difícil de explicar: marcas distintas de apostas — algumas competindo entre si — operadas a partir do mesmo endereço, com o mesmo diretor estatutário pessoa jurídica, administrado pelas mesmas pessoas físicas. Enquanto isso, o Banco Central documenta que cinco milhões de beneficiários do Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões para casas de apostas em um único mês.
Quando o Corinthians trocou de patrocinador em janeiro de 2024 — saindo da PixBet para fechar com a "Vai de Bet" e, em paralelo, entrar em tratativas com a "Esportes da Sorte" —, ninguém disse aos torcedores o que documentos públicos de Curaçao mostram em letras pretas no papel. As três marcas aparecem ligadas a empresas registradas no mesmo endereço de Curaçao, com o mesmo capital nominal, com o mesmo diretor estatutário, e com a mesma pessoa física assinando contratos em nome desse diretor. Os contratos do clube com Vai de Bet e Esportes da Sorte foram, em parte, assinados pela mesma pessoa: Jair Almeida Toussaint, da Downtown E-Commerce Company B.V., empresa de Curaçao listada pelo Banco Central daquele país como prestadora de serviços fiduciários (Trust Service Provider) — entidade cujo objeto social inclui prestar serviços corporativos e fiduciários, atuando como diretora, mandatária ou representante de terceiros.
Este é o ponto de partida, e ele se repete em outros casos investigados. Não é episódio isolado. É arquitetura. Quando se afasta o nome de fantasia das marcas, sobra um pequeno número de pessoas físicas, quase sempre as mesmas, associado a uma rede de empresas formalmente independentes, em jurisdições estrangeiras de baixa transparência. A empresa brasileira autorizada — aquela que aparece na lista da SPA/MF — é, com frequência, a face local de uma operação cujos ativos e estruturas relevantes aparecem em Curaçao, Malta, Chipre ou na Flórida.
Os dados abaixo não vêm de ativismo. Vêm do Banco Central, do Senado Federal e do Serasa. Foram apresentados em audiências públicas, em estudos técnicos oficiais e em reportagens com checagem dupla. Lidos juntos, formam um diagnóstico de saúde pública e financeira.
Segundo o Banco Central, a maioria dos apostadores tem entre 20 e 30 anos. O relatório da CPI das Bets identificou o produto mais lesivo do mercado: jogos virtuais sem qualquer vínculo com esportes reais — popularmente chamados de "tigrinho", "ratinho", "cobrinha". São jogos de pura sorte, com dinâmica idêntica à de caça-níqueis. É exatamente o tipo de produto explorado por marcas de cassino online, várias das quais aparecem nesta investigação.
Em maio de 2026, o debate sobre bets mudou de patamar — não por causa de novo escândalo, mas porque setores econômicos passaram a tratar o tema como problema próprio. O setor de atacarejo, segundo o Globo, levou ao vice-presidente Geraldo Alckmin um pacote de propostas contra o avanço das bets sobre a renda das famílias. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) começou a tratar o fenômeno como risco sistêmico ao consumo. E uma consultoria do mercado financeiro estimou, em estudo dedicado, que a aposta passou a competir diretamente com supermercado, vestuário e mensalidade escolar.
As três séries acima — gastos com bets, endividamento das famílias e CPFs negativados — atingiram simultaneamente patamares inéditos no primeiro trimestre de 2026. A correlação não prova, sozinha, causalidade. Mas a sincronia desautoriza tratar o fenômeno das bets como dado isolado.
O setor de atacarejo abastece, segundo a CNN Brasil, 76% dos lares brasileiros, representa 52% do varejo alimentar moderno e faturou R$ 369,5 bilhões em 2025 — porte suficiente para que sua intervenção pública desloque o eixo do debate. A leitura apresentada pela Associação Brasileira dos Atacadistas de Autosserviço (Abaas) é a de que "a roda da economia está travando" e que existe um "efeito K" no consumo: canais de alta renda crescem, canais da classe C e baixa renda recuam — exatamente onde a cesta básica e o pequeno varejo dependem de giro.Esses números são estimativas e disputas entre entidades — a redação adotada aqui mantém a fonte e admite o contraditório. O que é incontestável é a mudança de patamar: o problema deixou de ser tratado como questão moral ou individual e passou a ser tratado, por confederação setorial e por governo federal, como variável macroeconômica. Em paralelo, o governo já anunciou, no novo Desenrola, bloqueio de apostas por 12 meses para quem renegociar dívidas pelo programa, com restrição por CPF em plataformas de bets.
Esta é a parte da investigação que, sozinha, justifica o restante. Os documentos a seguir são públicos, autenticados, e foram obtidos por consulta direta a registros oficiais brasileiros e estrangeiros — não por vazamento, não por acesso privilegiado.
Os documentos a seguir mostram o seguinte: pelo menos três casas de apostas que se anunciam como marcas independentes — Esportes da Sorte, Vai de Bet (PixBet) e ONABET — operam, no exterior, a partir de um circuito societário comum. As três têm sua estrutura econômica relevante registrada em Curaçao. As três usam o mesmo endereço (Zuikertuin Tower). As três foram constituídas em 2022. As três têm capital nominal idêntico (US$ 100, em 100 ações de US$ 1). E as três têm como único diretor estatutário a mesma empresa: Downtown E-Commerce Company B.V., registro 142919 no Registro Comercial de Curaçao — listada pelo Banco Central daquele país como prestadora de serviços fiduciários.
Lidos isoladamente, são apenas registros administrativos. Lidos em conjunto, formam uma cadeia: o registro da HSF (Doc 01) e o da Betpix (Doc 02) provam que duas marcas distintas têm o mesmo diretor estatutário — Downtown E-Commerce. O registro da Downtown (Doc 03) prova que essa empresa tem como objeto social atuar como diretor, fiduciário e attorney-in-fact para terceiros — uma empresa de serviços fiduciários. O registro da Flórida (Doc 04) prova que a Downtown opera também nos EUA, com as mesmas duas pessoas físicas como gestoras. Os documentos do contrato (Docs 05, 06, 07) provam que a CONTRATANTE no Brasil é a HSF Gaming N.V. de Curaçao, que paga aos influenciadores 15% sobre as receitas captadas, e que o foro fica em Recife. O contrato com o Corinthians (Doc 08) prova que Jair Toussaint, em nome da Downtown, assinou contrato comercial em São Paulo. O registro de marca no USPTO (Doc 10) prova que o ativo intangível mais valioso ("Esportes da Sorte") está, internacionalmente, em nome da entidade de Curaçao — não da empresa brasileira autorizada.
Para evitar confusão entre o que está documentado e o que é hipótese de trabalho, esta aba aplica um padrão simples — replicável pelo leitor em qualquer denúncia que ele venha a fazer:
A Downtown E-Commerce Company B.V., que figura como diretor estatutário das três marcas brasileiras tratadas na seção anterior, voltou aos noticiários internacionais em 2026 — e não em razão do Brasil. A Nederlandse Loterij (Loteria Nacional Holandesa) ajuizou ação relacionada à plataforma de apostas Lalabet, e a discussão envolve, segundo cobertura especializada, o papel dos prestadores fiduciários ("trust offices") de Curaçao na facilitação de operações de apostas online em jurisdições onde elas não estariam autorizadas.
O ponto, para esta investigação, não é determinar a culpa de qualquer parte na disputa europeia. O ponto é diferente e mais simples: o tipo de estrutura que o dossiê descreve no eixo brasileiro não é uma anomalia local. É um modelo internacional, atualmente sob escrutínio de autoridades europeias e da imprensa especializada em iGaming. Quando o leitor brasileiro vê, na Aba 2, que três marcas que se anunciam como independentes têm a mesma Downtown como diretor estatutário, está vendo uma instância de algo que tribunais europeus estão examinando em outro contexto.
Reportagens publicadas em Curaçao Chronicle e iGaming Today em 2026 descrevem a ação proposta na Holanda contra estruturas associadas à Lalabet, com referência expressa a trust offices sediados em Curaçao. As reportagens não identificam a Downtown como ré em pé de igualdade com a operadora; o que registram é que o caso, ouvido em Haia, traz para o centro do debate o papel desses prestadores corporativos na operação de plataformas que atuam em mercados onde não têm licença.
A base oficial do Centrale Bank van Curaçao en Sint Maarten mantém a Downtown E-Commerce Company B.V. listada como Trust Service Provider, com endereço na Zuikertuin Tower e as mesmas duas pessoas físicas (G.C. Rellum e J. Almeida Toussaint) já mencionadas neste dossiê. Esse é, no plano oficial, o mesmo arranjo aplicado às marcas brasileiras tratadas na Aba 2.
A EA Entretenimento e Esportes S.A. — titular das marcas Esportiva Bet e Bateu Bet — está, desde março de 2025, sob medida cautelar da própria SPA/MF. Mas há outra dimensão que merece olhar: a forma como sua "casa do apostador", como se autointitula no perfil oficial verificado, é vendida a 918 mil seguidores por meio de fotos com Porsche, Corvette e terno em garagem própria. O homem da fotografia também está no QSA da empresa.
Quando a SPA/MF, em março de 2025, determinou a suspensão de novos cadastros, depósitos e apostas em esportiva.bet.br, bateu.bet.br e hanz.bet.br — todos domínios da EA Entretenimento e Esportes S.A. (CNPJ 53.570.592/0001-43) —, a leitura pública foi de "problema técnico". O documento da SPA/MF cita não apresentação de relatório técnico exigido. O que esse mesmo documento não diz, mas o cruzamento de fontes públicas sugere, é que a estrutura por trás da empresa segue um padrão familiar: capital social vultoso, quadro societário com várias pessoas físicas, CNAEs secundários cobrindo do marketing à intermediação financeira, e uma figura pública de marketing, vinculada ao quadro societário, que promove um estilo de vida de luxo nas redes.
auditoriafiscal@gennesys.com.alex@bateubet.com. O mesmo Alexsandro também é sócio na S.A.; o e-mail revela que o domínio "esportiva.bet.br" usa endereço da marca "bateubet", ligando formalmente as duas operações da mesma S.A.O perfil verificado @igor_business.mi, no Instagram, soma 918 mil seguidores. A bio se autoidentifica nesta ordem: "🙏🏼 Toda Honra e Glória a DEUS · 🇧🇷 CEO @esportiva.bet · 💼 Embaixador @sigma.world · 🌐 Business · Travel · Wellness". Os posts fixados mostram Igor Costa em eventos da SiGMA (uma das maiores feiras globais da indústria de iGaming), com legendas como "MINHA VIDA TIVESSE DADO CERTO". Outros posts exibem garagem com Porsche Macan e Corvette C8 verde, com legendas que falam em "verdadeira liberdade" e "paz interior".
O nome de Igor Reinan Marques Ramos Costa também aparece no QSA da EA Entretenimento e Esportes S.A. — a mesma empresa que está sob medida cautelar da SPA/MF. A combinação sócio formal + figura pública de marketing + ostentação digital + audiência de quase um milhão de pessoas não é isolada nem original: é um modelo de negócio reconhecido pelo relatório da CPI das Bets como um dos motores da captação predatória de público vulnerável. Em audiências da CPI, esse padrão foi descrito repetidamente: o influenciador-celebridade, vinculado à empresa, expõe o luxo como prova de que "dá certo", enquanto a empresa que ele representa registra como receita a perda de quem o segue.
Três pontos transformam este caso em prioridade administrativa, e não em mera curiosidade. Primeiro: a empresa já está sob medida cautelar formal da SPA/MF, então qualquer omissão posterior recai sobre uma operadora cuja conformidade técnica o próprio órgão regulador colocou em xeque. Segundo: a sobreposição "esportiva.bet.br responsável usando alex@bateubet.com" liga formalmente, por documento de Registro.br, duas marcas que aparecem no público como independentes — e ambas são da mesma S.A. Terceiro: o capital social de R$ 56 milhões em uma S.A. fechada nova merece exame de origem, especialmente combinado a uma filial criada três semanas após o domínio principal e a CNAEs cobrindo intermediação financeira.
Aplicado a esta operação, o que a Portaria SPA/MF nº 1.231/2024 (publicidade) e a Portaria SPA/MF nº 827/2024 (idoneidade) já permitem é exigir: identificação clara do material publicitário pago a Igor Costa e a outros influenciadores, contratos com cláusulas de revenue share, comprovação de origem do capital social, identificação do beneficiário final controlador e detalhamento de remessas internacionais relacionadas a tecnologia, software ou marca.
A Skill On Net Ltda. obteve autorização brasileira pela Portaria SPA/MF nº 374/2025 e opera as marcas BacanaPlay e PlayUZU. A matriz internacional, sediada entre Malta e Chipre, já enfrentou ações regulatórias na Inglaterra (£305.150 pagos em ação relativa a falhas de prevenção à lavagem de dinheiro) e na Dinamarca (três ordens e duas reprimendas por descumprimento da legislação antilavagem). No quadro brasileiro, uma figura aparece em dupla qualificação.
O grupo SkillOnNet é declarado publicamente como sediado em Malta. A UK Gambling Commission registra Skill On Net Limited com sede em Limassol, Chipre, com licenças remotas de bingo, cassino e software. O mesmo grupo já foi alvo de ação regulatória do Reino Unido, com pagamento de £305.150 após investigação que identificou falhas em responsabilidade social e prevenção à lavagem de dinheiro. A autoridade dinamarquesa (Spillemyndigheden) emitiu três ordens e duas reprimendas por violações da legislação antilavagem, incluindo avaliação de risco, controles internos, documentação e triagem de pessoas politicamente expostas.
Esse é o histórico declarável que precede a chegada ao Brasil. A Portaria SPA/MF nº 827/2024, que rege os requisitos para autorização, exige integridade e idoneidade. A pergunta-chave para a SPA/MF é direta: tal histórico foi declarado no pedido de autorização brasileira? E foi avaliado conforme o critério de idoneidade?
Consulta à Ficha Cadastral Completa da JUCESP (NIRE 35264401360, atualização 08/05/2026) e ao cadastro da Receita Federal registra a seguinte estrutura societária e administrativa da Skill On Net Ltda.:
A linha do tempo da JUCESP registra ainda movimentações relevantes para a apuração: em 16/09/2025, o objeto social foi expressamente alterado para incluir "exploração de jogos de azar e apostas", antes apenas residual; em 22/04/2025, saíram do quadro Irineu da Costa Pacheco Junior e Luis Fernando Diegues Cardieri, administradores originais da constituição; em 25/07/2025, foi destituída Bruna Regina Avanci, e nomeado Leonardo da Silva Santos, com mudança simultânea no eixo geográfico da administração para Salvador (BA). A progressão do capital social (R$ 35 mi → R$ 200 mi em 17 meses) é compatível com aporte de matriz internacional.
A Skill On Net Ltda. opera, no Brasil, sob duas marcas principais: BacanaPlay (bacanaplay.bet.br) e PlayUZU (playuzu.bet.br). Ambas são, internacionalmente, marcas do grupo SkillOnNet. O modelo replica, com variações, a arquitetura observada nos outros casos: empresa brasileira autorizada, ativos econômicos relevantes (marca, software, plataforma) detidos por entidade estrangeira, e remuneração do uso desses ativos por contratos de licenciamento e fees de tecnologia que precisam ser examinados pela Receita Federal e pelo COAF.
Diferentemente do caso HSF/Betpix/Downtown, a trilha do grupo OIG aponta para outra offshore de Curaçao — ONE INTERNET B.V., registro 163352 — historicamente associada à operação internacional de 7Games, Betão e R7. Hoje, a face brasileira é a OIG Gaming Brazil Ltda., autorizada pela SPA/MF a operar quatro marcas. O empresário por trás do grupo, Fernando Oliveira Lima, conhecido como Fernandin OIG, é o mesmo dono do jatinho que voltou de São Martinho com cinco malas sem inspeção da Receita.
A One Internet Group — popularmente "grupo OIG" — não é uma única empresa. É um conjunto de pessoas jurídicas no Brasil e no exterior, com funções aparentemente distintas e capital social vultoso, articuladas em torno do empresário Fernando Oliveira Lima. A descrição abaixo é feita com base em consultas a registros públicos, em documentos do relatório da relatoria da CPI das Bets, e em depoimento do próprio Fernandin OIG àquela comissão em novembro de 2024.
Ao contrário dos casos das Abas 2 e 3 (HSF Gaming e Esportiva Bet), aqui o empresário não se esconde. Pelo contrário: Fernandin OIG mantém perfil público com mais de um milhão de seguidores no Instagram, exibindo viagens em jatinho a destinos como Dubai, Maldivas, Alpes Franceses, Mônaco e Caribe, e relacionamentos com celebridades. Em 2024, no leilão do Instituto Neymar Jr., arrematou uma chuteira banhada a ouro por mais de R$ 1 milhão. A exposição é deliberada — e ironicamente foi ela que ajudou as autoridades a documentar movimentações que serão tratadas mais à frente.
Os elementos a seguir foram reunidos a partir de bases públicas (Receita Federal, SPA/MF, Curaçao Gaming Authority, lista da Curaçao Commercial Register) e do relatório da relatoria da CPI das Bets — material proposto pela senadora Soraya Thronicke e rejeitado em votação 4×3 pela própria comissão. O dossiê trata o relatório, portanto, como peça de relatoria, não como conclusão aprovada do colegiado.
A lista oficial da SPA/MF registra autorização da OIG Gaming Brazil Ltda. para operar:
7games.bet.brbetao.bet.brr7.bet.brO grupo, segundo declaração do próprio Fernandin à CPI, pagou R$ 30 milhões pela licença brasileira em 2024.
Em depoimento à CPI das Bets em novembro de 2024, Fernando Oliveira Lima descreveu o histórico do grupo: começou com jogos sociais no Facebook, passou a prestar serviços de publicidade digital com contratos com Google e Facebook para atender empresas internacionais, e a partir de 2023 passou a prestar serviços para casas de apostas internacionais. Quanto ao Fortune Tiger ("Tigrinho"), Fernandin afirmou que o jogo é desenvolvido pela PG Soft, com sede em Malta, e que sua plataforma atuava como agregadora — pagando para disponibilizar o jogo. Mencionou também a BetConstruct, da Armênia, como agregador. Negou ser proprietário do "jogo do tigrinho", embora vincule sua imagem pública à plataforma.
O relatório da relatoria da CPI registrou hipótese investigativa sobre incongruências patrimoniais e a possibilidade de a OIG Gaming Brazil servir como veículo de internalização de receitas geradas no exterior por meio da offshore One Internet B.V., sob o disfarce de prestação de serviços de marketing ou tecnologia. Como o relatório foi rejeitado pelo colegiado, esta hipótese permanece em aberto, sob ônus institucional do MPF, da Receita Federal e do COAF.
Há um ponto que merece registro próprio. Reportagens publicadas durante a CPI noticiaram que o próprio Fernandin OIG entregou à comissão um sistema construído pela sua empresa — apresentado como ferramenta para a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) — que teria identificado 2.037 sites piratas de apostas após derrubada de domínios pela Anatel. O paradoxo é direto: um operador privado do setor, citado pelo relatório de relatoria da CPI, também se apresenta como fornecedor de inteligência setorial — para a entidade representativa do setor e, indiretamente, para o regulador. Isso exige transparência sobre metodologia, dados acessados, contratos com a ANJL, entregas ao Ministério da Fazenda e eventuais conflitos de interesse.
Como já mencionado na Aba 6 (Incentivo + Linha) deste dossiê, varredura em fontes abertas identificou páginas com termos como "OIG Gaming Brazil 7Games Bet R7" indexadas em domínios .gov.br e similares. Não há prova de autoria — o padrão é compatível com SEO poisoning, exploração de afiliados, abuso de CMS ou uso indevido de subdomínios. Não cabe ao dossiê atribuir responsabilidade ao grupo OIG nesse achado específico. Cabe sim pedir que CERT.br, NIC.br, CGU e órgãos titulares dos domínios apurem origem, logs, IPs, redirecionamentos e eventual monetização.
Há um detalhe contratual que, sozinho, reorganiza tudo o que se sabe sobre publicidade de bets no Brasil. Ele aparece literalmente, em letras pretas, em um dos contratos analisados nesta investigação, e foi descrito, em termos análogos, no relatório final da CPI das Bets. A relatora cunhou o termo: cláusula da desgraça alheia.
A cláusula 8ª do contrato de prestação de serviço entre HSF Gaming N.V. e o(a) influenciador(a) digital prevê: valor mensal fixo mais "comissionamento (Revenue Share) de 15% (quinze por cento), especificamente sobre os cadastros/usuários/receitas provenientes do link do influenciador". A "receita" da casa, em apostas, é em larga medida o que o apostador perdeu. A equação é direta: quanto mais o seguidor perde, mais o influenciador ganha.
O contrato analisado prevê ainda valor mensal fixo bruto pago à pessoa física ou jurídica do influenciador, e valor adicional ao "PRIMEIRO INTERVENIENTE ANUENTE" — terceira figura, possivelmente uma agência ou empresa intermediadora, cujo papel deve ser apurado. Cláusula 9ª exige nota fiscal enviada para faturamento@esportesdasorte.com — confirmando que a operação financeira passa pelo email institucional da marca brasileira.
A varredura de fontes abertas identificou páginas promocionais de bets indexadas em domínios .gov.br e .edu.br — incluindo subdomínios de universidades federais e órgãos públicos. Não há prova de autoria das operadoras; pode tratar-se de SEO poisoning, invasão de CMS, exploração de afiliados ou cloaking. O ponto investigativo não é apenas cibersegurança: é funil de captação. CERT.br, NIC.br e CGU têm competência para examinar logs e resolver isso tecnicamente.
.bet.br, podem operar legalmente no Brasil.esportiva.bet.br, bateu.bet.br e hanz.bet.br.A Aba 8 deste dossiê documenta o gatekeeping do Senado sobre o setor de apostas. Esta aba documenta o eixo paralelo na Câmara dos Deputados. Não há, até aqui, prova pública de vínculo societário ou financeiro direto entre Hugo Motta e operadores de apostas. O achado relevante é institucional: como presidente da Câmara, ele controlava a pauta da Casa no momento em que o setor disputava tributação, publicidade, regulação — e foi passageiro, em abril de 2025, do jatinho do empresário do setor que a Polícia Federal hoje investiga.
Em 20 de abril de 2025, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), o senador Ciro Nogueira (PP-PI), os deputados Doutor Luizinho (PP-RJ) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL), e o ex-vereador de Teresina Victor Linhares retornaram ao Brasil em jatinho particular vindo da ilha caribenha de São Martinho. O pouso ocorreu no Aeroporto Executivo Internacional Catarina, em São Roque (SP). Cinco malas entraram no Brasil sem inspeção do equipamento de raio-X, segundo relatório da Polícia Federal a que a Folha de S. Paulo teve acesso. Um auditor da Receita Federal teria autorizado o piloto a passar com os volumes por fora do equipamento.
A aeronave pertence ao empresário Fernando Oliveira Lima, conhecido como Fernandin OIG, fundador da One Internet Group e proprietário das marcas 7Games, Betão, R7 e ICE — todas detalhadas na Aba 5 deste dossiê. A PF instaurou inquérito por suspeita de facilitação de contrabando e prevaricação. O caso, em mar/2026, foi remetido ao STF em razão do foro privilegiado dos parlamentares e tramita em sigilo sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes. Em 24/04/2026, Moraes determinou que a PGR se manifeste em até cinco dias.
Em nota oficial, Hugo Motta afirmou que, "ao desembarcar no aeroporto, cumpriu todos os protocolos e determinações estabelecidas na legislação aduaneira" e que "aguardará a manifestação da Procuradoria Geral da República". Os demais parlamentares procurados não se manifestaram. A defesa de Motta consta nesta aba integralmente, em respeito ao princípio do contraditório.
A composição do voo importa para o argumento institucional. Não eram parlamentares aleatórios; eram nomes formalmente ligados à articulação parlamentar do setor de jogos.
Registro formal da Câmara dos Deputados confirma a existência da Frente Parlamentar Mista do Jogo Responsável, coordenada por Doutor Luizinho, com Ciro Nogueira como primeiro vice-presidente e Isnaldo Bulhões como segundo vice-presidente. A frente reúne deputados e senadores com agenda comum sobre a regulamentação do setor. Hugo Motta não é dirigente formal dessa frente. Seu papel institucional é mais alto: como presidente da Câmara, ele controla a pauta da Casa onde a frente atua e onde tramitam medidas provisórias e projetos que afetam diretamente o setor.
Se a Aba 8 deste dossiê descreve "três frentes, uma mesma cadeira" no Senado de Davi Alcolumbre, a Câmara apresenta padrão análogo sob a presidência de Hugo Motta. Três episódios merecem registro em sequência cronológica.
A Medida Provisória 1.303/2025, apresentada pelo governo como compensação ao recuo do IOF, previa elevar a tributação das bets sobre o GGR de 12% para 18%, com os 6 pontos adicionais destinados à Seguridade Social. A Câmara dos Deputados, presidida por Motta, foi o palco central da disputa. A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) encaminhou aos presidentes da Câmara e do Senado, e a líderes de bancada, estudo contra a elevação, segundo registro da revista Veja. O relator da MP na Câmara retirou o aumento da versão atualizada — o que contribuiu para a derrubada da medida em outubro de 2025, por 251 votos a 193. A CNI cobrou publicamente Motta e Alcolumbre na ocasião.
Em 24 de fevereiro de 2026, horas antes da votação do PL Antifacção (Marco Legal de Combate ao Crime Organizado), representantes da rede de rádio Transamérica Media Company (TMC) e do Instituto Esfera levaram a Motta um estudo sobre regulação do mercado de iGaming. A reunião, registrada por veículo especializado do setor, contou com a participação de João Camargo (acionista da TMC), do narrador Eder Luiz, do comentarista Benjamin Back e do advogado criminalista Pierpaolo Bottini, do Conselho Acadêmico do Instituto Esfera. O PL Antifacção, em sua versão aprovada no Senado pelo relator Alessandro Vieira (MDB-SE), previa a criação da CIDE-Bets — Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico sobre apostas, com estimativa de arrecadação de até R$ 30 bilhões por ano, destinada a segurança pública e sistema prisional. Quando a pauta foi a plenário da Câmara, o trecho da CIDE-Bets foi retirado do texto final. A proposta seguiu para sanção sem o tributo. Em sessão presidida por Motta.
Em 31 de outubro de 2025, em entrevista à GloboNews, Hugo Motta declarou: "Falta dinheiro para a segurança, falta valorização para as nossas forças policiais, falta investimento em estratégia e tecnologia. Usar parte da arrecadação das apostas é uma medida inteligente para aumentar os recursos da segurança pública." Defendeu, na mesma entrevista, o aumento da taxação das bets como prioridade da Câmara. Quatro meses depois, em fevereiro de 2026, sob sua presidência, o tributo destinado precisamente à segurança pública foi retirado do PL Antifacção horas após reunião do presidente da Casa com lobby do setor. A contradição entre o discurso público de outubro e a sequência institucional de fevereiro não prova má-fé; é registro factual a ser explicado.
Fracassou por falta de tempo — e por interesse institucional. A relatora pediu 130 dias de prorrogação. Recebeu 45. A comissão realizou 21 reuniões, ouviu 19 pessoas (cerca de 10% do que ela mesma havia aprovado), viu 6 convocados não comparecerem, e terminou com seu próprio relatório rejeitado por 4 votos a 3. Em cima de tudo isso, paira o controle de prazo e agenda exercido pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
Uma CPI é, antes de qualquer coisa, um cronograma. Aprova-se um plano de trabalho, listam-se depoentes, requisitam-se documentos, marcam-se sessões. O que se viu na CPI das Bets, segundo registros oficiais da Agência Senado e das notas taquigráficas, foi a diferença entre o que estava planejado e o que efetivamente aconteceu — uma diferença grande o suficiente para que o resultado final não pudesse, materialmente, fechar a investigação que se propunha.
A reconstrução abaixo é feita a partir de matérias da Agência Senado e das notas taquigráficas oficiais, sem interpretação adicional além da sequência factual.
Reportagens publicadas durante e após a CPI registraram bastidores que ajudam a contextualizar o desfecho. Esses relatos são tratados aqui como o que são: jornalismo de bastidor com atribuição a aliados, não fato provado.
O Metrópoles, na coluna de Igor Gadelha, publicou que aliados de Alcolumbre relatavam que ele não pretendia prorrogar novamente a CPI, após considerar a presença de Virgínia Fonseca à comissão um "circo". A Revista Oeste, em registro mais explícito, atribuiu a aliados a confirmação de que Alcolumbre teria atuado pelo encerramento da CPI; a oposição teria visto interesse em reduzir repercussão sobre nomes citados nas audiências e abrir caminho, depois, para uma regulação mais ampla incluindo bingos e cassinos. Os relatos não estão fundamentados em documento ou áudio; permanecem no campo do bastidor jornalístico.
Após o encerramento da CPI, a Presidência do Senado seguiu protagonista em três frentes simultâneas que afetam diretamente o setor de apostas: a pauta legislativa dos jogos, a negociação tributária do GGR (a base de cálculo das bets) e o ciclo de audiências em comissões do Senado com entidades do setor. O dossiê não infere intencionalidade, mas registra a concentração: as três frentes passaram, em momentos críticos, pela mesma mesa.
Em julho de 2025, Alcolumbre pautou o PL 2.234/2022, que regulamenta cassinos, bingos, jogo do bicho e apostas em corridas de cavalos. Cancelou a tradicional reunião de líderes na quinta-feira anterior à votação prevista. No próprio dia da sessão, em 8 de julho, retirou a matéria da pauta alegando quórum baixo, divergências e pedidos de adiamento. A CNN Brasil registrou, à época: "Alcolumbre está empenhado na aprovação da proposta desde o ano passado"; outras coberturas registraram que o avanço da proposta ocorreria "em meio a um lobby intenso de empresários do setor". Em fevereiro de 2026, o mesmo PL voltou a ser pautado pela Presidência — desta vez como item extra-pauta, na noite de 17 de fevereiro, novamente próximo do recesso legislativo. Em movimento separado, atendendo pedido de líderes, Alcolumbre pautou projeto para proibir bets de contratar jogadores e influenciadores.
Em junho/julho de 2025, no contexto da MP 1.303/2025 — apresentada como compensação ao recuo do IOF —, o governo propôs elevar a tributação das bets sobre o GGR (Gross Gaming Revenue, a receita bruta da casa após pagamento de prêmios) de 12% para 18%, com os 6 pontos adicionais destinados à Seguridade Social. A medida gerou reação coordenada do setor. A Veja noticiou que a Associação Nacional dos Jogos e Loterias (ANJL) enviou aos presidentes da Câmara e do Senado, Hugo Motta e Davi Alcolumbre, além de líderes de bancada, estudo tentando dissuadir o Congresso da elevação. Reportagens registraram mobilização conjunta de ANJL, IBJR, ABRAJOGO, ABFS, AIGAMING e IJL contra a majoração; parte do material foi encaminhada à Presidência do Senado. A Veja também publicou que telefonema entre Hugo Motta e Davi Alcolumbre estaria por trás do cancelamento de reunião da CAE que votaria projeto de aumento de tributação sobre bets, fintechs e mercado de capitais — segundo a matéria, Renan Calheiros disse ter cancelado a reunião para dar tempo ao governo tentar convencer Motta. A CNI, em manifestação pública, registrou que o relator chegou a retirar da versão atualizada da MP o trecho que aumentava a tributação das bets, e que o presidente da entidade enviou mensagem a Motta e Alcolumbre manifestando indignação.
A negociação do IOF/MP 1.303 passou diretamente pela Presidência do Senado: a Agência Brasil registrou que, após reunião do ministro Fernando Haddad com Hugo Motta, Davi Alcolumbre e líderes partidários, o governo anunciou a recalibração do IOF e a inclusão da cobrança de 18% sobre o GGR das bets. A medida provisória, segundo o boletim legislativo do próprio Senado, recebeu 678 emendas, das quais 36 foram classificadas no subtema "Apostas de Quota Fixa (Bets)".
As entidades do setor não atuaram apenas fora do Congresso. Atas de audiências públicas no Senado registram a presença formal: na Comissão de Esporte, o diretor jurídico da ANJL, Pietro Cardia Lorenzoni, defendeu que restrições excessivas à publicidade poderiam empurrar consumidores para o mercado ilícito; na CCJ, em audiência sobre Imposto Seletivo, registra-se a presença de Eric Brasil pelo IBJR e de Ana Helena Karnas Hoefel Pamplona pela ANJL; em outra audiência da Comissão de Esporte, comparecem Fernando Vieira (presidente executivo do IBJR) e Fernando Gallo Fernandes (diretor de políticas públicas da Betano).
Cada uma dessas decisões é, individualmente, prerrogativa legítima da Presidência do Senado. O que esta investigação registra é a concentração: as três frentes mais sensíveis do debate sobre apostas — fiscalização parlamentar, regulamentação dos jogos e tributação do GGR — passaram, em janelas de tempo coincidentes, pela mesma mesa institucional. Após a CPI ter sido encerrada com 45 dias de prorrogação em vez dos 130 pedidos, a Presidência do Senado seguiu sendo o ponto único de controle da pauta nacional sobre apostas e jogos — e, agora se sabe, também o destinatário formal do lobby tributário do setor.
Aplicando o mesmo padrão da Aba 2:
O leitor pode, com razão, perguntar: se o relatório foi rejeitado pela própria comissão, qual o problema institucional? A resposta tem três pontas. Primeira: a votação 4×3 só ocorreu porque a CPI chegou ao final comprimida; com 130 dias adicionais e mais depoentes ouvidos, o relatório teria, no mínimo, mais material para justificar suas conclusões — e a votação interna não pode ser separada do prazo que a precedeu. Segunda: a Presidência do Senado é, por desenho institucional, quem decide sobre prorrogações. Não é uma decisão técnica; é uma decisão política. Reconhecer isso não é acusar; é descrever. Terceira: o encerramento da CPI sem medidas adotadas transferiu integralmente o ônus da fiscalização para Executivo, MPF e MPs estaduais — entes que, diferentemente do Senado, não têm calendário definido pela conjuntura partidária. O dossiê que o leitor está percorrendo é, em parte, consequência disso.
Em 8 de outubro de 2025, a Prefeitura de Salvador anunciou oficialmente a Esportes da Sorte como "Bet Oficial da Cidade". O CEO da empresa, Darwin Filho — o mesmo que assina os contratos da HSF Gaming N.V. de Curaçao —, posou ao lado do prefeito Bruno Reis, do presidente da Saltur Isaac Edington e do cantor Léo Santana, embaixador da marca. O município se autoatribuiu o título informal de "Capital Bet". Esta aba documenta por que isso é um desserviço à cidade.
A foto da cerimônia, divulgada pelo portal Classe Política e replicada pelo Jornal Correio, mostra o aperto de mão entre o prefeito Bruno Reis (União Brasil) e Darwin Henrique da Silva Filho. Não é um contrato qualquer. Trata-se de patrocínio para mais de 200 eventos até 2026, incluindo o Carnaval — que em fevereiro de 2026 reuniu 12,5 milhões de pessoas, segundo balanço da própria prefeitura. Em outras palavras: a marca da Esportes da Sorte foi exposta, com chancela do poder público, ao maior evento de massa do país.
O problema não é o patrocínio em si — é a quem se aperta a mão, e em que momento. Darwin Filho é, segundo apurações públicas (e como mostram as Abas 2 e 5 deste dossiê), CEO no Brasil de uma estrutura cuja CONTRATANTE formal de divulgação é a HSF Gaming N.V., empresa de Curaçao administrada pela Downtown E-Commerce Company B.V. — listada pelo Banco Central daquele país como prestadora de serviços fiduciários. A mesma estrutura assinou, em janeiro de 2024, contrato de patrocínio com o Sport Club Corinthians Paulista pelas mãos de Jair Almeida Toussaint, "em nome de Downtown E-Commerce Company B.V.". A Esportes da Sorte foi citada na Operação Integration da Polícia Civil de Pernambuco em setembro de 2024.
Antes de discutir o argumento do prefeito, vale localizar o problema. Os dados a seguir são do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (dezembro de 2025) e do IBGE (estimativa 2024).
Aplicando ao recorte local o dado do Banco Central — segundo o qual cerca de um em cada cinco beneficiários do Bolsa Família transferiu dinheiro para casas de apostas em agosto de 2024 —, isso indicaria, em ordem de grandeza, cerca de 54 mil famílias soteropolitanas potencialmente expostas em um único mês. O número é uma extrapolação, não uma medição. Mas, mesmo com margens de erro generosas, sustenta o ponto: a indústria que recebe selo oficial da Prefeitura de Salvador opera, no agregado nacional, sobre a fatia mais vulnerável da população — e essa fatia, em Salvador, é grande.
O prefeito justificou a parceria pela liberação de recursos públicos para "educação, saúde ou área social". O argumento merece exame em duas frentes.
Primeira: dados do Banco Central, levantados em estudo solicitado pelo senador Omar Aziz, mostraram que cinco milhões de beneficiários do Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões para casas de apostas em um único mês de 2024 (agosto) — equivalente a aproximadamente 21% do total mensal do programa social. A Esportes da Sorte é uma das principais marcas desse mercado. Aceitar patrocínio de uma indústria que captura, no agregado nacional, parte significativa do orçamento das famílias mais pobres — para depois realocar a economia municipal para "projetos sociais" — é circular: a prefeitura recebe da empresa que extrai renda das mesmas famílias que a área social tenta proteger.
Segunda: a rede municipal de Salvador ocupa, segundo o IDEB 2023 (último divulgado), a 18ª posição entre as 26 capitais nos anos finais do ensino fundamental, com nota 4,2. Em 2024, o município direcionou R$ 2,7 bilhões à educação, conforme a Secretaria Municipal de Educação. Ainda assim, a relação entre o investimento aplicado e o resultado de aprendizagem permanece sob crítica de especialistas. Aceitar o selo de "Capital Bet", em uma cidade nessas condições educacionais, é mensagem pública contraditória — sobretudo a partir do dado do Banco Central de que a maioria dos apostadores tem entre 20 e 30 anos, faixa que inclui jovens recém-egressos da rede que se busca melhorar.
A varredura em fontes públicas não identificou vínculo societário, financeiro, contratual, fiduciário ou offshore direto entre Antônio Carlos Magalhães Neto, ex-prefeito de Salvador (2013–2020) e atual vice-presidente nacional do União Brasil, e operadores de apostas. O elo aqui descrito é de outra natureza: político-institucional, e tem dois eixos documentáveis.
Bruno Reis, prefeito que celebrou a parceria oficial com a Esportes da Sorte, não é figura politicamente autônoma em relação a ACM Neto. Ele foi assessor, depois vice-prefeito na gestão de ACM, e chegou ao cargo principal em 2020 como sucessor indicado pelo grupo. Em 2024, sua reeleição foi tratada pela imprensa econômica como "triunfo para ACM Neto", reforçando que Salvador segue sob comando do mesmo grupo político desde 2012.
Mais do que sucessão, há indícios atuais de influência ativa de ACM Neto sobre a Prefeitura de Salvador — o que vai além de "padrinhado retórico". Reportagens de 2024–2026 documentam:
O ponto, para o dossiê, é simples: quando o leitor lê que a Prefeitura de Salvador conferiu chancela oficial à Esportes da Sorte, precisa entender que essa Prefeitura opera dentro de um arranjo político em que o ex-prefeito segue ativo, presente e, em momentos definidos, decisor por extensão. Isso não significa que ACM Neto assinou ou negociou a parceria com a operadora de apostas — não há, até aqui, prova pública de que tenha. Significa que a decisão municipal não pode ser lida fora desse contexto político.
No plano federal, a posição do partido presidido por ACM Neto na disputa tributária das bets é fato documentado. Em outubro de 2025, o líder do União Brasil na Câmara, Pedro Lucas, anunciou que a bancada havia fechado questão contra a Medida Provisória 1.303/2025, que aumentava de 12% para 18% a tributação sobre o GGR das bets (Aba 7 deste dossiê). A justificativa pública foi posição do partido contra aumento de impostos; a decisão seguiu proposta da Executiva Nacional do União Brasil — colegiado em que ACM Neto exerce a vice-presidência.
O requerimento que retirou a MP de pauta, fazendo-a caducar (251 a 193), foi apresentado por Kim Kataguiri, do União Brasil. A bancada baiana do partido — Arthur Maia, Dal Barreto, Elmar Nascimento, José Rocha, Leur Lomanto Jr. e Paulo Azi — votou pela retirada. Não há prova pública, neste momento, de que ACM Neto tenha pessoalmente orientado a posição da bancada; o que há é o registro de que o partido em que ele ocupa a vice-presidência atuou no Congresso contra a elevação tributária do mesmo setor cuja marca a Prefeitura de Salvador, sob seu sucessor político, oficializava como parceira.
Três pontos resumem a crítica, cada um sustentado em fonte pública:
O Ministério Público da Bahia (MP-BA), o Tribunal de Contas dos Municípios (TCM-BA) e a Câmara Municipal de Salvador podem — e, no entendimento desta investigação, devem — examinar a parceria sob os seguintes ângulos:
Qualquer cidadão de Salvador pode, gratuitamente, pedir cópia do contrato pelo e-SIC da Prefeitura. O número de protocolo, o conteúdo e a resposta da prefeitura são, em si, peças informativas que podem alimentar o debate público — e este dossiê.
Diferentemente do que se imagina, o Brasil já tem o ferramental legal e administrativo para responder a essas perguntas. O que falta é articulação. Abaixo, o que cada órgão pode — e, no entendimento desta investigação, deve — apurar. E os canais por meio dos quais qualquer cidadão pode protocolar denúncia gratuita.
.gov.br e .edu.brMesmo com o encerramento prematuro da CPI, o Estado brasileiro tem produzido peças regulatórias relevantes nos últimos meses. O dossiê registra três delas, não para celebrá-las, mas para mostrar que o ferramental de fiscalização já está sendo usado — e pode ser usado mais.
Reportagem do Intercept, com base em dados obtidos via Lei de Acesso à Informação, mostrou que auxílios-doença concedidos por jogo patológico eram raros entre 2015 e 2022 — média anual inferior a 11 benefícios — mas começaram a crescer em 2023 e a atingir dezenas por mês a partir do segundo semestre de 2024. O dado é importante porque a ludopatia deixa de ser termo abstrato e passa a ter custo previdenciário mensurável. A previsão legal de destinação de 1% da arrecadação líquida das bets para mitigação de danos sociais existe; o que precisa ser fiscalizado é o seu cumprimento efetivo pela pasta da Saúde.
Esta investigação foi feita por um cidadão. Qualquer pessoa pode protocolar denúncia — gratuitamente — nos seguintes canais:
falabr.cgu.gov.brmpf.mp.br/saladeatendimentoconsumidor.gov.brcert.br/contatoToda denúncia rende mais quando vem com três coisas: (1) o nome formal da empresa e o CNPJ, copiados deste dossiê; (2) o número do ato administrativo que se quer fazer cumprir (Lei 14.790/2023, Portaria SPA/MF 827/2024, Portaria SPA/MF 1.231/2024); e (3) o link direto para a aba deste dossiê que documenta o ponto. Quanto mais específica, mais difícil é arquivar sem resposta.
Em 2 de junho de 2026, 342 personalidades brasileiras — somando mais de 6 milhões de seguidores — protagonizaram a campanha Block no Tigrinho, articulada pelo movimento 342Artes e coordenada por Paula Lavigne. Esta investigação cidadã se soma a esse esforço. O dossiê acrescenta documentos. A campanha acrescenta vozes. As duas coisas, juntas, formam pressão.
As bets se transformaram em um problema de saúde pública. Uma epidemia que está devastando famílias, criando vício, sofrimento e dívidas. A campanha mostra que a sociedade não aceita mais esse cenário.
Mete um block nele →A campanha foi lançada em 2 de junho de 2026 com um vídeo de 1 minuto e 56 segundos publicado no perfil oficial do movimento 342Artes no Instagram. No primeiro dia, o vídeo reuniu vozes como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Djavan, Paulinho da Viola, Marieta Severo, Anitta, Camila Pitanga, Letícia Sabatella, Emicida e Sandra de Sá. Em poucos dias, o número de signatários ultrapassou três centenas. Cada nome anexado soma seu próprio alcance ao da campanha — e o conjunto passou a operar como uma das poucas frentes brasileiras de pressão pública contra a normalização das apostas online.
O movimento 342Artes apresenta-se como uma articulação entre artistas e sociedade civil em defesa da democracia. O perfil derivado da campanha, @blocknotigrinho, opera como hub de conteúdo: explica a mecânica predatória das plataformas, denuncia a normalização da publicidade de apostas por celebridades e influenciadores, e convida quem tem alcance a aderir ao movimento.
A peça central da campanha articula três níveis. Primeiro, a constatação clínica: a Organização Mundial da Saúde classifica o transtorno do jogo (ludopatia) como transtorno do comportamento aditivo desde a CID-11 (código 6C50). Segundo, a constatação econômica: estimativas do IEPS apontam custo social anual de R$ 38,8 bilhões — três a seis vezes superior à arrecadação tributária do setor. Terceiro, a constatação política: a publicidade dirigida — sobretudo por influenciadores com público jovem — normaliza um produto que, em situação de vulnerabilidade financeira ou psíquica, opera como gatilho de adoecimento.
O ponto não é proibir o jogo entre adultos cientes. É romper com a estrutura de captura que transforma jovens, famílias endividadas e beneficiários de programas sociais em alvos preferenciais de uma máquina algorítmica desenhada para extrair, não para entreter.
Recorte de alguns dos 312 nomes públicos disponíveis no site da campanha (blocknotigrinho.com.br) até 7 de junho de 2026:
A lista completa, atualizada em tempo real, está disponível em blocknotigrinho.com.br
Este dossiê e a campanha Block no Tigrinho atuam em registros distintos e complementares. A campanha do 342Artes mobiliza vozes públicas para tirar a normalização das apostas da esfera do gosto pessoal e colocá-la no centro do debate moral e político. Este dossiê, em paralelo, organiza documentação técnica: registros comerciais de Curaçao, Florida, USPTO, Banco Central, SPA/MF, JUCESP e SEC — mostrando que marcas que se anunciam como rivais operam, em diversos casos, do mesmo endereço, com a mesma administração, sob estruturas societárias internacionais que precisam ser apuradas pelas autoridades competentes.
O dossiê não substitui a campanha. A campanha não substitui o dossiê. Os dois movimentos compartilham um diagnóstico: o problema não é o jogo entre adultos cientes; é a engenharia comercial que transforma vulnerabilidade em receita. E compartilham um pedido: que o Estado brasileiro use os instrumentos que tem para apurar, fiscalizar e proteger.
A campanha pede um block nos influenciadores. Mas existe um block ainda mais direto, que você pode dar agora mesmo — no produto. Desde dezembro de 2025, o Governo Federal mantém a Plataforma Centralizada de Autoexclusão: com uma única solicitação, usando só o seu CPF, você bloqueia de uma vez o acesso a todas as casas de apostas autorizadas no Brasil e para de receber a publicidade que puxa de volta para o jogo. É gratuita, confidencial e leva poucos minutos.
● Plataforma Centralizada de Autoexclusão · Ministério da FazendaFonte: Ministério da Fazenda (SPA/MF) e Serpro · plataforma no ar desde 10/12/2025 · dados de 1º/6/2026.
O endereço oficial fica sempre dentro do domínio gov.br. Desconfie de qualquer outro link recebido por SMS, e-mail ou redes sociais.
O que acontece a partir daí. No momento em que você confirma, o governo avisa todas as casas de apostas autorizadas, que têm até 72 horas para travar seu acesso. A partir disso: as contas que você já tinha nas bets ficam bloqueadas; seu CPF fica indisponível para criar cadastros novos; e você para de receber SMS, e-mails e propagandas oferecendo bônus de aposta.
A própria plataforma traz ainda um Autoteste de Saúde Mental e encaminha para pontos de atendimento do SUS, para o Meu SUS Digital e para a Ouvidoria do SUS. Vale lembrar: o autobloqueio é uma barreira, não a cura — funciona melhor combinado com tratamento. Se o jogo já virou sofrimento, a aba Preciso de ajuda reúne os caminhos médicos, jurídicos e de apoio.
Qualquer cidadão com presença em redes sociais pode aderir à campanha. O processo é simples: acesse o site da campanha, preencha o formulário com nome, telefone, e-mail, UF e cidade, e some seus seguidores à mobilização. Quem adere passa a receber missões, materiais digitais prontos e orientações sobre como influenciar a favor do que importa.
Você não precisa ser celebridade para somar. O movimento se chama Block no Tigrinho justamente porque cada bloqueio individual ao conteúdo predatório de influenciadores que promovem bets é, em escala, uma das poucas armas disponíveis. Block coletivo é boicote.
blocknotigrinho.com.br
Esta aba não trata mais da estrutura comercial das bets. Trata de quem já foi atingido. Quem perdeu dinheiro, sono, casamento, emprego, dignidade. Ludopatia é doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde — tem tratamento, e a pessoa adoecida tem direitos. As informações abaixo são organizadas em três blocos: caminhos médicos, caminhos jurídicos, e canal direto para orientação institucional.
A Organização Mundial da Saúde classifica o transtorno do jogo (popularmente "ludopatia" ou "jogo patológico") na Classificação Internacional de Doenças, 11ª revisão, sob o código 6C50, no grupo dos transtornos devidos a comportamentos aditivos. O núcleo clínico envolve perda de controle sobre o jogo, prioridade crescente atribuída ao jogo em detrimento de outras atividades e continuidade ou escalada do comportamento apesar de consequências negativas — financeiras, familiares, profissionais.
Isso quer dizer, em linguagem direta: a pessoa que está apostando além do que pode, mesmo prometendo a si mesma que vai parar, mesmo escondendo da família, mesmo se sentindo culpada — não está sendo fraca, irresponsável ou imoral. Está em um quadro clínico que tem nome, que tem tratamento, e que, sem ajuda, tende a se agravar.
Há sinais que ajudam a identificar quando o jogo deixou de ser entretenimento e virou problema: aumentar progressivamente o valor apostado em busca da mesma "emoção"; voltar a apostar para "recuperar" perdas (caçar o prejuízo); mentir a familiares sobre quanto está sendo gasto; pedir empréstimo, vender bens ou usar recursos destinados a contas básicas para apostar; sentir irritabilidade ou ansiedade quando tenta parar; perder horas de sono, atrasar trabalho ou faltar a compromissos por causa do jogo. Se você se reconhece em mais de um desses sinais, o caminho não é se culpar. É buscar ajuda.
Antes mesmo de procurar tratamento, há uma barreira que você pode levantar hoje, de graça: a Plataforma Centralizada de Autoexclusão do Governo Federal bloqueia, de uma só vez, o seu CPF em todas as bets autorizadas e ainda corta a publicidade. O endereço oficial é gov.br/autoexclusaoapostas — e o passo a passo completo está na aba Block.
O Brasil tem uma rede pública de saúde mental que atende ludopatia gratuitamente, e movimentos da sociedade civil que oferecem acolhimento. Os principais caminhos:
Para familiares: ludopatia adoece também quem está em volta. A família de uma pessoa com ludopatia geralmente passa por culpa, vergonha, raiva, desgaste financeiro e ruptura de confiança. Os mesmos canais acima (CAPS, CVV, grupos) atendem familiares. Não tente carregar sozinho.
A Justiça brasileira tem reconhecido, em volume crescente de decisões, o direito do apostador diagnosticado com ludopatia de reaver, total ou parcialmente, os valores transferidos para plataformas de apostas. A base legal combina três pilares: o art. 26, VI, da Lei nº 14.790/2023 (que veda a participação de pessoa diagnosticada com ludopatia e declara nulas as apostas em desacordo); o Código de Defesa do Consumidor (que reconhece a hipervulnerabilidade do consumidor adoecido); e a jurisprudência consolidada de tribunais estaduais.
Casos paradigmáticos recentes incluem o TJDFT, que determinou a devolução de R$ 337.086,00 a consumidor diagnosticado com ludopatia (proc. 0711732-88.2025); o TJSP, que reconheceu falha no dever de jogo responsável e admitiu restituição de R$ 456.247,02 (proc. 4031658-91.2025); e o TJRS, que em maio de 2026 condenou plataforma a restituir R$ 206.723,00 a apostador que fizera 90 mil apostas em 7 meses. Em janeiro de 2026, o Desembargador Sérgio Fusquine Gonçalves (TJRS, 19ª Câmara Cível) registrou em decisão monocrática frase que ganhou repercussão nacional: "exigir de um ludopata que ele próprio se autoexclua equivale a pedir a um dependente químico que pare de consumir a substância por sua própria vontade".
O caminho jurídico, na prática, exige três elementos básicos: (1) laudo médico de profissional habilitado atestando o transtorno; (2) documentação do histórico de movimentações na plataforma (extratos, comprovantes, tickets de atendimento); e (3) assistência jurídica para protocolar a ação. Cada caso tem suas particularidades — nexo causal, marco temporal, conduta da plataforma — e o resultado depende dessas variáveis. Não há promessa de resultado; há, porém, uma jurisprudência cada vez mais favorável ao consumidor adoecido.
O Mandato do Deputado Estadual Hilton Coelho (PSOL), que apoia institucionalmente esta investigação cidadã, oferece um canal de escuta e orientação para casos de ludopatia — tanto na dimensão clínica (encaminhamento à rede de saúde) quanto na dimensão jurídica (orientação sobre possibilidades de recuperação patrimonial). O contato é feito pelos canais oficiais do mandato:
O Instagram do Deputado Estadual Hilton Coelho (@hiltoncoelho50) concentra os canais oficiais de atendimento — incluindo o WhatsApp do mandato. A triagem inicial é feita pela equipe institucional, que encaminha a demanda para a assessoria jurídica ou para os canais de saúde apropriados.
A orientação prestada pelo mandato tem caráter informativo e de encaminhamento. Em casos que envolvam ação judicial, o atendimento será direcionado a profissional habilitado, sem custo para o cidadão atendido pela assessoria.
Ir ao Instagram do mandato →Se o contato não puder ser feito pelo mandato, os caminhos médicos da seção 2 e os caminhos jurídicos da seção 3 desta aba continuam disponíveis. O importante é não enfrentar isso sozinho. Pedir ajuda é o primeiro passo do tratamento — e é, em si, um ato de coragem.
A ludopatia tem características que tornam o sofrimento particularmente solitário: a vergonha de admitir, a fantasia de que "uma última aposta resolve", a sensação de que o problema é da pessoa, não do produto. Esta investigação cidadã demonstra o oposto: o problema é estruturado, o produto é desenhado para capturar, e há uma rede comercial transnacional operando com a regulação ainda em construção. Você não criou esse cenário. Mas pode sair dele.
Pedir ajuda médica não é admissão de derrota. É admissão de inteligência: reconhecer que existe uma força maior do que a vontade individual e que essa força tem nome, tem tratamento e tem rede de apoio. Pedir ajuda jurídica não é "ficar com o dinheiro de outros". É exercer um direito que o Estado brasileiro reconhece desde a Lei nº 14.790/2023 e que o Judiciário vem confirmando em decisões cada vez mais consistentes.
Se você chegou até aqui, no fim deste dossiê, é porque algo dentro de você já sabe. Procure ajuda hoje. Os caminhos estão acima.